
António Ribeiro Cristovão
Quero, antes de mais, agradecer à Dra. Zita Seabra o convite que me
endereçou para estar hoje aqui convosco na apresentação deste livro que
representa uma iniciativa louvável do jornalista e escritor Nelson Nunes
o qual tem já um extenso e apreciável currículo no domínio das ciências
da comunicação e que, em boa hora, entendeu que havia chegado o momento
de fazer uma incursão por áreas que embora dizendo respeito ao futebol
raramente são abordadas por um prisma que vai para além da competição em
si, e do seu estudo nas vertentes mais diversas.
Felizmente, tem sido colocada à nossa disposição, sobretudo nas
últimas duas décadas, uma profusão de obras que muito têm contribuído
para enriquecer o conhecimento de todos, sejam muito ou pouco
apaixonados pela matéria, e que encontram todos os dias fortes razões
para manterem acesa a chama de uma paixão que deixou de permitir o
acesso apenas a alguns.
Nelson Nunes resolveu abordar o futebol enveredando por um ângulo
diferente. Ou seja, chamar à realidade situações vividas por muitos
jogadores ou simplesmente candidatos que o grande público desconhece. Ou
porque não lhe suscita grande interesse, ou, simplesmente, porque para
ele o mais importante são as grandes equipas, os grandes jogos, as
grandes estrelas que povoam, mais do que o seu imaginário, a sua
realidade.
Serão poucos, certamente, aqueles que pensam que o futebol dos nossos
dias tem, como pano de fundo, para os futebolistas, o paraíso na terra.
Que têm ao seu dispor tudo o que há de melhor e mais invejável: potes
cheios de dinheiro, vida faustosa, ostentação, e acesso àquilo a que não
pode chegar a maioria dos outros concidadãos.
Sabemos que não é assim. Tal faixa de privilegiados, que atingem esse
estatuto por força do seu talento, mas também mercê de muito trabalho, é
muito mais estreita do que se pode imaginar. Quem lida diariamente com
esses problemas sabe que bastas vezes, por detrás da figura de um
jogador se escondem problemas tantas vezes difíceis de compreender.
Como muito bem aduz na contracapa do seu livro, Nelson Nunes
mostra-nos ao longo das várias histórias que nos relata com maestria a
“dura realidade de jogar nas divisões inferiores do futebol em Portugal,
bem como as lutas diárias com salários em atraso, agentes traiçoeiros e
promessas vazias.
Neste domínio, acrescenta o autor, “joga-se na fronteira da glória,
onde o futebol é mais escuro, e estes jogadores são alguns dos que não
conseguiram singrar num meio hostil”.
Daí que, e muito a propósito, considere enriquecedoras as nove
histórias que nos oferece, e envolvem o leitor de modo tão intenso que
dificilmente deixarão de ser sorvidas quase ininterruptamente. Além do
mais, a escrita apresenta-se-nos fácil e escorreita, acrescentando-lhe
condimentos que permitem antever que a obra se venha a tornar depressa
num sucesso de livraria.
E daqui partimos para o título, título muito feliz, que Nélson Nunes entendeu atribuir a este seu trabalho.
“Quando a bola não entra”, aguça o apetite para depois rumar a um
mundo que muitos futebolistas habitam, mas ao qual, por norma, quase
todos nós damos relativa importância.
Como bem sabemos e reconhecemos sem esforço, ainda que muitas vezes
nos tenhamos de penitenciar por isso, o melhor espaço dos jornais,
televisões e rádios é por rotina frequentemente exclusivo daqueles que
têm arte e magia para nos oferecer o deleite de que os clubes e
jogadores vulgares não são capazes de proporcionar até menos exigente
dos adeptos.
Sobretudo os atletas. Porque eles são a peça fundamental e decisiva
do jogo. Dos demais agentes raramente se sente a falta. O futebol
poderia passar sem dirigentes, sem treinadores, sem empresários, e
também sem jornalistas. Porque basta um jogador e uma bola para nos
manter despertos e apaixonados durante horas a fio.
“Quando a bola não é entra” é uma expressão tão rica que já muitos
não hesitaram em a transportar para diversos ramos da nossa vida
quotidiana.
Como muito bem afirma no prefácio deste livro o nosso seleccionador
nacional, engenheiro Fernando Santos, este é um livro de leitura
obrigatória para todos, sobretudo para “os mais jovens que têm, ou
venham a ter o sonho legítimo de um dia serem profissionais de futebol,
não confundindo, como muito bem acentua, com jogadores de futebol”.
O saber de experiência feito do responsável das nossas selecções
presta aqui um louvável serviço chamando a atenção para a aventura em
que tantas vezes entram filhos e pais no convencimento de que o
El-dorado está ali ao virar da esquina.
Todos nós conhecemos jovens que se perderam na vida porque a ambição
desmedida dos seus progenitores os empurrou para becos sem saída. Não é
raro falar hoje com jovens em plena idade escolar e chegarmos
rapidamente à conclusão que a sua meta é transformar-se um dia num outro
Cristiano Ronaldo, o qual, seguindo a mais aceitável das lógicas
encarna um fenómeno irrepetível, sobretudo nos tempos mais próximos.
O futebol não é, pois, para a imensa maioria, o paraíso na terra. E
Nélson Nunes chama bem cedo no livro a atenção para essa triste
realidade. O seu “Apito Inicial” constitui até um toque de despertar com
o objectivo de chamar a atenção daqueles que passam ao lado do sucesso.
Porque este, como muito bem acentua, não é uma regra no futebol. Longe
disso, infelizmente.
Em “Quando a bola não entra”, Nelson Nunes vai ao pormenor na
incursão que decidiu fazer na vida de nove futebolistas, todos eles
protagonistas de histórias com matriz diferente mas que acabam por
desembocar na mesma realidade.
Seria fastidiosa, demorada e até injustificada uma abordagem a todas
essas histórias. Deixo essa tarefa para todos aqueles a cujas mãos este
livro chegar, na certeza de ficarão muito mais próximos de uma realidade
que, por vezes ignoramos, ou, outras tantas “chutamos para canto”.
Edgar Marcelino, Fábio Marques, Vítor Afonso, Gonçalo Gonçalves,
Marco Bicho, Rebelo, Pepa, Vasco Varão, Tininho, são nomes com que nos
poderíamos cruzar em qualquer esquina da vida, e que, por isso, pouco ou
nada dirão à grande maioria dos adeptos do futebol. Excepção talvez
para Rebelo, que ainda chegou a andar colado à fama durante uns tempos,
mas que acabou por cair num vazio onde permanece, na expectativa de que o
futuro lhe abra perspectivas diferentes.
De todos estas histórias que Nelson Nunes nos oferece permito-me
abordar, ainda que ao de leve, apenas duas: do Rebelo e do Tininho.
Tininho, nascido em 1980, em Moçambique, defesa-esquerdo, que
calcorreou clubes e, que, apesar de algum infortúnio, aos 35 anos ainda
permanece na expectativa de que o telefone possa tocar a qualquer
momento. Foi um dos muitos jogadores que também se deixou seduzir por
melhores contratos que o futebol além-fronteiras é capaz de
proporcionar. E assim, depois de ter andado pelos nossos distritais, 3ª
divisão, 2ª divisão B, e 1ª Liga, quis experimentar o exigente futebol
inglês primeiro, e o emergente futebol romeno depois, neste caso uma
experiência amarga envolta em momentos verdadeiramente rocambolescos.
Mais do que um capítulo, preenchido por uma narrativa muito intensa, a
vida do Tininho daria, só por si, e como refere o autor, uma obra
literária ou até cinematográfica.
O nome de Rebelo é-nos familiar. Este globetrotter da vida e do
futebol, nascido em Loures, em 1961, iniciou a sua longa experiência em
diversos clubes da margem sul, mas Joaquim Meirim, um autodidata da bola
e uma figura incontornável dos anos 70 e 80, treinador que encheu então
páginas de jornais com frequência inusitada, levou Rebelo para o
Estrela da Amadora, clube onde viveu os dias mais felizes de uma
carreira que ultrapassou os vinte anos. Iniciada no Clube de Futebol da
Trafaria, a história futebolística de Rebelo nasceu mergulhada numa
esperança que ao longo dos anos se foi desvanecendo. Nos dias de hoje,
Joaquim Gonçalves Rebelo vive ligado a um emprego muito frágil que lhe
proporciona pouco mais do que o salário mínimo nacional.
Ao mesmo tempo que agradeço a vossa disponibilidade para me
escutarem, convido-os a lerem esta e todas as outras histórias de vida
que este livro contém, com a certeza de que não darão por mal empregue o
vosso tempo.
E, mais uma vez, parabéns ao Nélson Nunes, por ter ousado invadir o
mundo esconso do futebol, que tantas vezes escapa ao conhecimento da
maioria de todos nós.
(Texto de apresentação da obra, a 14 de Setembro de 2015)