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segunda-feira, 9 de novembro de 2009

«Cartas da Península, 1808-1812», de Sir William Warre

Nas livrarias a 6 de Novembro


William Warre nasceu no Porto em 1784, e era neto de outro William Warre, que chegou a Portugal em 1706. O seu pai, trisavô do autor das notas deste livro, era James Warre, um comerciante de vinho do Porto na mais antiga companhia britânica do ramo, fundada em 1670.

Depois de ter crescido no Porto, William foi estudar para Inglaterra, regressando para trabalhar na empresa da família, a Warre & Co. No entanto, a sua carreira viria a ser breve, muito por causa da sua jovem natureza rebelde. O episódio que precipitou o seu abandono deu-se quando colou o cabelo de um sócio português à secretária, enquanto este dormia a sesta – o que obviamente não agradou nem à família nem aos seus parceiros de negócio. William saiu assim do país, o que não terá sido a seu descontento. Ansioso por seguir a carreira militar, entrou para o Exército Britânico em 1803, aos 19 anos de idade.

Cinco anos depois, em 1808, viria no entanto a regressar a Portugal, com o Corpo Expedicionário Britânico, para repelir a primeira das três invasões dos exércitos de Napoleão. Quando se alistou, mal poderia imaginar que depressa estaria envolvido numa luta desesperada para libertar o muito amado país onde nasceu, ao qual tinha fortes ligações familiares. Durante grande parte da guerra, esteve adstrito à secção portuguesa do Exército Anglo-Português, com os seus conhecimentos da língua e dos costumes locais a revelarem-se fundamentais na reorganização das forças portuguesas.

Durante aquele período turbulento, o capitão Warre participou em quase todas as grandes batalhas em Portugal e Espanha, desempenhando um papel determinante nas batalhas da Roliça, do Vimeiro ou da libertação do Porto (e também da Corunha, de Badajoz, de Salamanca). Este livro apresenta as suas cartas para a família, relatando os sucessos e os insucessos dos combates, e os interlúdios de marcha e planeamento, transmitindo-nos uma visão inigualável das campanhas do início do século XIX, e de como era o Portugal profundo da altura.


Cartas da Península, 1808-1812
Texto de Sir William Warre
Edição de Edmond Warre (1909)
Notas de William Acheson Warre (1999)

Alêtheia Editores, Novembro de 2009
Tradução: Carlos Marques
ISBN: 978-989-622-206-2
Formato: 130*220 cm
Nº de páginas: 408 + 8 il.
Preço: 18,00 €

«Cartas da Península» reeditadas 100 anos depois


O Portugal que resistiu às invasões francesas é revisitado amanhã, com o lançamento das cartas de William Warre, uma espécie de Lawrence da Arábia luso-britânico que participou em algumas das batalhas mais surpreendentes de todas as guerras napoleónicas

Intitulado Cartas da Península - 1808/1812, o livro reúne os apontamentos que o jovem oficial britânico foi partilhando com a família e que resultam num testemunho directo de um dos períodos mais intensos da história de Portugal do século XIX.

Nascido no Porto, em 1784, no seio de uma família britânica ligada ao comércio do vinho português desde o início daquele século, Warre acabou por ter, apesar da sua pouca idade (ingressou no Exército britânico aos 19 anos), um papel vital na resistência às invasões napoleónicas, por dominar a língua portuguesa e pelo seu conhecimento das mentalidades e do território do país.

Este facto deu-lhe a possibilidade de acompanhar por dentro, na primeira linha, algumas das batalhas que fazem parte do imaginário nacional, de outras que a maioria já esqueceu e mesmo de ajudar na resistência civil.

Daí que as suas cartas, embora pessoais, estejam repletas de referências militares e históricas: «Junot dispõe no total de cerca de 14.000 homens, mas não poderá oferecer longa resistência, visto estar quase completamente cercado por nós, com 13.000 a 15.000 homens no total, pelo Norte, e por um corpo de cerca de 6000 portugueses; e da margem norte do Tejo, vindo de Badajoz, por um corpo de 10.000 homens do Exército espanhol do general Castanho, constituído, pelo que ouvi dizer, dos melhores e mais bravos indivíduos que há, tal como o próprio general e, na realidade, todos os espanhóis em armas», escreveu a 8 de Agosto de 1808.

Os dados objectivos são intervalados por manifestações de profunda carga emocional: «Ser-me-ia impossível expressar os meus sentimentos ao ver o lugar onde nasci, e onde passei os dias mais felizes da minha vida, ou o tormento de não poder comunicar», desabafa, ao largo da costa portuguesa, impedido ainda regressar a solo nacional após o treino militar no Reino Unido.

Presente na libertação do Porto

Desembarcado em Portugal, Warre esteve presente em quase todas as batalhas mais importantes ocorridas em Portugal e em Espanha durante este período tumultuoso. Lutou na Batalha da Roliça (o primeiro combate da Guerra Peninsular) e na do Vimeiro, que conduziram directamente à libertação de Lisboa, e esteve com o general Sir John Moore na sua famosa e terrível retirada na Corunha, ainda hoje lendária na história britânica.

Esta catastrófica marcha de Inverno através de montanhas cobertas de neve culminou na batalha desesperada nos cumes das colinas da Corunha e na morte prematura do general Moore. Warre escreveu numa carta para casa relatando a honra de estar na retaguarda e de ser o último oficial a embarcar a 16 de Janeiro, no momento em que os franceses tomavam a cidade.

O capitão Warre esteve presente na libertação da sua cidade natal, o Porto; no cerco e tomada de Ciudad Rodrigo; e testemunhou a brutalidade do segundo cerco e saque de Badajoz, em Abril de 1812. Embora tivesse apenas 27 anos na altura, foi o oficial principal na intimação do Forte de São Cristóvão e fez prisioneiros os generais Philippon e Weyland – os comandantes franceses de Badajoz –, que lhe entregaram as suas espadas pessoalmente.

O jovem luso-britânico esteve na épica e decisiva batalha de Salamanca, em Julho de 1812, que muitos estrategas militares consideram ser aquela em que Wellington demonstrou as suas grandes qualidades estratégicas, ainda mais do que em Waterloo.

Primeira edição há 100 anos

Este testemunho das guerras napoleónicas e da proximidade das relações entre os dois aliados históricos que eram Portugal e a Grã-Bretanha foi editado pela primeira vez em 1909, por iniciativa de um sobrinho, e mereceram uma segunda edição em 1999, pela mão de um sobrinho-bisneto.

Cem anos após a sua primeira edição, as Cartas da Península - 1808/1812 ressuscitam pela mão da Alêtheia Editores e serão apresentadas amanhã numa sessão que contará com a presença do director adjunto do jornal PÚBLICO Manuel Carvalho e de William Acheson Warre, descendente directo do autor. Simbolicamente o lançamento do livro terá lugar na Feitoria Inglesa.

PÚBLICO/LUSA, 9 de Novembro de 2009