terça-feira, 17 de Novembro de 2009
segunda-feira, 9 de Novembro de 2009
«Fontes Pereira de Melo», de Maria Filomena Mónica
Em 1850, o estado das estradas portuguesas não podia ser pior. A única via decente era a que ligava a capital a Coimbra. De Lisboa, era mais fácil chegar-se a Southampton do que a Bragança. Fontes Pereira de Melo acreditava que a circulação – das coisas, dos homens, das ideias – era positiva. Foram os governos a que presidiu, ou em que teve assento, que, entre 1856 e 1886, planearam e construíram 82,5% dos 2153 quilómetros de vias férreas existentes.
O louvor à modernidade é bom para a retórica, mas os homens sentem-se melhor vivendo e produzindo como os pais e os avós. Por isso, não se admirou que contra o projecto ferroviário se tivessem levantado os almocreves, temerosos das locomotivas, os senhores rurais, que receavam pedidos de aumentos salariais, os camponeses, irritados com os forasteiros, os credores do Estado, indignados com a política financeira, os párocos, que olhavam os funcionários dos caminhos de ferro como uns hereges, e os políticos da oposição, que proclamavam que um país pobre não pode esbanjar dinheiro. A 7 de Maio de 1853, diante da augusta presença de D. Maria II e de D. Fernando, Fontes inaugurava as obras. Se conseguisse iniciar a linha entre Lisboa e o Carregado, pensou, o resto viria por acréscimo. O resto era nada mais, nada menos do que a união do país à Europa. A ele, sobretudo a ele, o devemos.
Maria Filomena Mónica
Fontes Pereira de Melo: Uma Biografia
Edição revista e aumentada
Alêtheia Editores, Novembro de 2009
ISBN: 978-989-622-186-7
Formato: 13*22 cm
Nº de páginas: 264 + 16 il.
Preço: 16,00 €
«Cartas da Península, 1808-1812», de Sir William Warre
William Warre nasceu no Porto em 1784, e era neto de outro William Warre, que chegou a Portugal em 1706. O seu pai, trisavô do autor das notas deste livro, era James Warre, um comerciante de vinho do Porto na mais antiga companhia britânica do ramo, fundada em 1670.
Depois de ter crescido no Porto, William foi estudar para Inglaterra, regressando para trabalhar na empresa da família, a Warre & Co. No entanto, a sua carreira viria a ser breve, muito por causa da sua jovem natureza rebelde. O episódio que precipitou o seu abandono deu-se quando colou o cabelo de um sócio português à secretária, enquanto este dormia a sesta – o que obviamente não agradou nem à família nem aos seus parceiros de negócio. William saiu assim do país, o que não terá sido a seu descontento. Ansioso por seguir a carreira militar, entrou para o Exército Britânico em 1803, aos 19 anos de idade.
Cinco anos depois, em 1808, viria no entanto a regressar a Portugal, com o Corpo Expedicionário Britânico, para repelir a primeira das três invasões dos exércitos de Napoleão. Quando se alistou, mal poderia imaginar que depressa estaria envolvido numa luta desesperada para libertar o muito amado país onde nasceu, ao qual tinha fortes ligações familiares. Durante grande parte da guerra, esteve adstrito à secção portuguesa do Exército Anglo-Português, com os seus conhecimentos da língua e dos costumes locais a revelarem-se fundamentais na reorganização das forças portuguesas.
Durante aquele período turbulento, o capitão Warre participou em quase todas as grandes batalhas em Portugal e Espanha, desempenhando um papel determinante nas batalhas da Roliça, do Vimeiro ou da libertação do Porto (e também da Corunha, de Badajoz, de Salamanca). Este livro apresenta as suas cartas para a família, relatando os sucessos e os insucessos dos combates, e os interlúdios de marcha e planeamento, transmitindo-nos uma visão inigualável das campanhas do início do século XIX, e de como era o Portugal profundo da altura.
Cartas da Península, 1808-1812
Texto de Sir William Warre
Edição de Edmond Warre (1909)
Notas de William Acheson Warre (1999)
Alêtheia Editores, Novembro de 2009
Tradução: Carlos Marques
ISBN: 978-989-622-206-2
Formato: 130*220 cm
Nº de páginas: 408 + 8 il.
Preço: 18,00 €
«A democracia em Cabo Verde está intimamente ligada a este homem»
«Recordo um Carlos Veiga humilde e sensato, inteligente, lido, atento, observador, não muito extrovertido, que me impressionou aos 17 anos; magnífico aluno, com boas notas em todas as cadeiras, muito seguro, muito credível, leal, solidário, fazia parte de grupos desportivos, tertúlias, amigo do seu amigo; estudámos juntos algumas vezes, muito organizado, realista.»
Lisboa, 4 de Novembro – O político-estrela português não poupou elogios quer ao biografado quer ao autor da obra. Marcelo Rebelo de Sousa (MRS) fez uma abordagem de Carlos Veiga, O Rosto da Mudança em Cabo Verde, de Nuno Manalvo, publicado pela editora Alêtheia, para as várias personalidades da política portuguesa e alguns cabo-verdianos, presentes no Grémio Literário de Lisboa, na noite desta segunda-feira.
«Trata-se de uma biografia política e não pessoal», disse, «apesar de o autor não se esquecer do homem por detrás dela.» A biografia faz uma viagem pelos antecedentes históricos dos acontecimentos no país, para se compreender a descolonização e como ela como ocorreu em Cabo Verde.
O professor de Direito português referiu, longamente e com visível entusiasmo, os êxitos políticos conseguidos nos anos noventa pelo Movimento para a Democracia, liderado por Carlos Veiga, as reformas levadas a cabo graças à maioria conseguida nas urnas, nas primeiras eleições livres no país, em 1991, e que permitiria uma profunda revisão constitucional, desenvolvimento social e económico e a criação de estruturas políticas básicas, como o poder local democrático.
«A democracia em Cabo Verde está intimamente ligada a este homem, é obra de muitos cidadãos, mas tem um rosto», salientou MRS, atribuindo a Carlos Veiga o mérito de ter «aberto Cabo Verde ao mundo económica e diplomaticamente». Referindo-se ao livro de Nuno Manalvo: «Trata-se de um livro informado, por quem se mexe bem em matéria de ciência política»; um livro transversal, e na sua opinião escrito para poder «ser lido por especialistas e cidadãos comuns, por cabo-verdianos e também portugueses».
Com a boa disposição que o caracteriza, MRS recordou o tempo em que ambos foram colegas dos bancos da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, no curso de 1966/1971. Curso esse, aliás, onde estavam colegas como Miguel Beleza, Jorge Braga de Macedo, Leonor Beleza, Conceição Nunes, personalidades da vida política portuguesa, nos anos noventa.
«Recordo um Carlos Veiga humilde e sensato, inteligente, lido, atento, observador, não muito extrovertido, que me impressionou aos 17 anos; magnífico aluno, com boas notas em todas as cadeiras, muito seguro, muito credível, leal, solidário, fazia parte de grupos desportivos, tertúlias, amigo do seu amigo; estudámos juntos algumas vezes, muito organizado, realista.»
Para o autor, Nuno Manalvo, o livro tenta retratar fielmente aquilo que foi até agora a vida política de Carlos Veiga, ideia surgida depois de uma conversa à mesa de um restaurante, em Washington.
Carlos Veiga, o biografado, confessou ter ponderado os riscos da publicação de uma biografia política, «numa sociedade com algum grau de crispação política». No entanto, o político decidiu-se pela sua publicação, como esclareceu, «tendo em conta o que de mais importante poderia advir dele, o efeito positivo que é dar à estampa uma parte importante da história recente do país – as mudanças profundas e a transição política levada a cabo pelo MpD, de um Estado de partido único para um Estado de direito democrático».
A mudança do paradigma económico num clima de estabilidade, e de festa, na opinião do estadista «merece ser mais bem conhecido, para crédito de Cabo Verde e do povo cabo-verdiano».
Liberal Online, 4 de Novembro de 2009
«Cartas da Península» reeditadas 100 anos depois

O Portugal que resistiu às invasões francesas é revisitado amanhã, com o lançamento das cartas de William Warre, uma espécie de Lawrence da Arábia luso-britânico que participou em algumas das batalhas mais surpreendentes de todas as guerras napoleónicas
Intitulado Cartas da Península - 1808/1812, o livro reúne os apontamentos que o jovem oficial britânico foi partilhando com a família e que resultam num testemunho directo de um dos períodos mais intensos da história de Portugal do século XIX.
Nascido no Porto, em 1784, no seio de uma família britânica ligada ao comércio do vinho português desde o início daquele século, Warre acabou por ter, apesar da sua pouca idade (ingressou no Exército britânico aos 19 anos), um papel vital na resistência às invasões napoleónicas, por dominar a língua portuguesa e pelo seu conhecimento das mentalidades e do território do país.
Este facto deu-lhe a possibilidade de acompanhar por dentro, na primeira linha, algumas das batalhas que fazem parte do imaginário nacional, de outras que a maioria já esqueceu e mesmo de ajudar na resistência civil.
Daí que as suas cartas, embora pessoais, estejam repletas de referências militares e históricas: «Junot dispõe no total de cerca de 14.000 homens, mas não poderá oferecer longa resistência, visto estar quase completamente cercado por nós, com 13.000 a 15.000 homens no total, pelo Norte, e por um corpo de cerca de 6000 portugueses; e da margem norte do Tejo, vindo de Badajoz, por um corpo de 10.000 homens do Exército espanhol do general Castanho, constituído, pelo que ouvi dizer, dos melhores e mais bravos indivíduos que há, tal como o próprio general e, na realidade, todos os espanhóis em armas», escreveu a 8 de Agosto de 1808.
Os dados objectivos são intervalados por manifestações de profunda carga emocional: «Ser-me-ia impossível expressar os meus sentimentos ao ver o lugar onde nasci, e onde passei os dias mais felizes da minha vida, ou o tormento de não poder comunicar», desabafa, ao largo da costa portuguesa, impedido ainda regressar a solo nacional após o treino militar no Reino Unido.
Presente na libertação do Porto
Desembarcado em Portugal, Warre esteve presente em quase todas as batalhas mais importantes ocorridas em Portugal e em Espanha durante este período tumultuoso. Lutou na Batalha da Roliça (o primeiro combate da Guerra Peninsular) e na do Vimeiro, que conduziram directamente à libertação de Lisboa, e esteve com o general Sir John Moore na sua famosa e terrível retirada na Corunha, ainda hoje lendária na história britânica.
Esta catastrófica marcha de Inverno através de montanhas cobertas de neve culminou na batalha desesperada nos cumes das colinas da Corunha e na morte prematura do general Moore. Warre escreveu numa carta para casa relatando a honra de estar na retaguarda e de ser o último oficial a embarcar a 16 de Janeiro, no momento em que os franceses tomavam a cidade.
O capitão Warre esteve presente na libertação da sua cidade natal, o Porto; no cerco e tomada de Ciudad Rodrigo; e testemunhou a brutalidade do segundo cerco e saque de Badajoz, em Abril de 1812. Embora tivesse apenas 27 anos na altura, foi o oficial principal na intimação do Forte de São Cristóvão e fez prisioneiros os generais Philippon e Weyland – os comandantes franceses de Badajoz –, que lhe entregaram as suas espadas pessoalmente.
O jovem luso-britânico esteve na épica e decisiva batalha de Salamanca, em Julho de 1812, que muitos estrategas militares consideram ser aquela em que Wellington demonstrou as suas grandes qualidades estratégicas, ainda mais do que em Waterloo.
Primeira edição há 100 anos
Este testemunho das guerras napoleónicas e da proximidade das relações entre os dois aliados históricos que eram Portugal e a Grã-Bretanha foi editado pela primeira vez em 1909, por iniciativa de um sobrinho, e mereceram uma segunda edição em 1999, pela mão de um sobrinho-bisneto.
Cem anos após a sua primeira edição, as Cartas da Península - 1808/1812 ressuscitam pela mão da Alêtheia Editores e serão apresentadas amanhã numa sessão que contará com a presença do director adjunto do jornal PÚBLICO Manuel Carvalho e de William Acheson Warre, descendente directo do autor. Simbolicamente o lançamento do livro terá lugar na Feitoria Inglesa.
PÚBLICO/LUSA, 9 de Novembro de 2009
segunda-feira, 2 de Novembro de 2009
IMPAC Dublin Literary Award
Sachenka, de Simon Sebag Montefiore (publicado pela Alêtheia em Agosto), é um dos 156 candidatos ao prémio IMPAC Dublin, ao lado dos portugueses José Saramago (As Intermitências da Morte/Death With Interruptions), José Eduardo Agualusa (As Mulheres do Meu Pai/My Father's Wives) e José Rodrigues dos Santos (O Codex 632/Codex 632).
O IMPAC Dublin é o maior prémio literário anglófono, no valor de 100.000 euros, e os candidatos são escolhidos por bibliotecários de todo o mundo.
Notícia do Guardian
terça-feira, 27 de Outubro de 2009
«O Rosto da Mudança em Cabo Verde» foi dado à estampa na Praia
O Rosto da Mudança em Cabo Verde, um livro académico que compara toda a história do período recente da vida política em Cabo Verde, portanto, da passagem do regime do partido único, para a democracia multipartidária, tendo como personagem principal Carlos Veiga, antigo primeiro-ministro de Cabo Verde e uma das principais figuras da transição do regime de partido único para a Democracia, em Cabo Verde, e recém-eleito presidente do MpD, foi apresentado ontem na Praia.
A cerimónia de lançamento do livro contou com a presença de Carlos Veiga, tendo garantido na ocasião que esta bibliografia política é «um retrato fiel e bem conseguido», pelo autor português, Nuno Manalvo, sobre uma década recente da história de Cabo Verde, onde decorreram muitas mudanças fundamentais e que, no fundo, «continuam a marcar» o país. «Nuno Manalvo está de parabéns por aquilo que fez e, eu, de facto, reconheço-me naquilo que está no livro, reconheço que é um retrato fiel dos nossos 10 anos de experiência e aventura que tivemos em Cabo Verde», considerou Carlos Veiga.
«Sou um rosto que reflecte muitos outros rostos de uma geração inteira que acreditou que era possível a mudança, que acreditou no povo de Cabo Verde e em si próprio e que introduziu mudanças profundas no país», por isso, Carlos Veiga considera que essa obra literária poderá ser muito importante para a história de Cabo Verde.
Carlos Veiga explica que aceitou o convite de Nuno Manalvo para a construção dessa obra política por inúmeras razões, mas sobretudo, para poder passar mensagens «à juventude da importância que têm, e que as grandes mudanças que ocorreram em Cabo Verde têm sido feitas pela juventude e que Cabo Verde é um país que só vai para frente com mudanças. Temos que, em cada fase da nossa vida, enquanto nação, ir conseguindo mudar para melhor. E portanto, que a juventude actual tem também uma responsabilidade grande para fazer mudança que é necessária para o desenvolvimento. E essa juventude tem que acreditar que é possível, e que Cabo Verde tem futuro».
A apresentação do livro esteve sob a responsabilidade do sociólogo Abraão Vicente, na sala de conferências da Biblioteca Nacional, na cidade da Praia, a abarrotar-se de gente. Abraão Vicente diz que estamos perante uma obra que faz a socialização da figura de Carlos Veiga, mas não uma «mistificação» dessa figura. Existe sim, nesta biografia, o relato da História de Cabo Verde, «e a história é uma só».
O Sociólogo realça que o livro tem de ser lido com um «olhar crítico», independentemente de militância, pois, estamos perante um livro «tão essencial para militância do MpD como para o do PAICV», considera, concluindo que, esta bibliografia política «é o primeiro passo para criarmos um verdadeiro olhar crítico sobre diferentes fazes da história, porque a militância não justifica a ignorância». E nesse contexto diz esperar que surjam novos livros a contestar essa bibliografia política.
O autor do livro, Nuno Manalvo, por considerar Carlos veiga uma figura impar na história de Cabo Verde e na democracia cabo-verdiana e «alguém que teve um papel fundamental na transição para o regime democrático em Cabo Verde», resolveu materializar esta obra, resultado de um ano de conversa que culminou a redacção desta bibliografia política.
HF, Expresso das Ilhas, 24 de Outubro de 2009
Biografia política de Carlos Veiga
CIDADE DA PRAIA – O professor universitário português Nuno Manalvo, lanç[ou] sexta-feira [dia 23 de Setembro], na Cidade da Praia, um livro que constitui uma biografia política de Carlos Veiga, actual líder da oposição em Cabo Verde.
Carlos Veiga, O Rosto da Mudança em Cabo Verde, publicado pela editora portuguesa Alêtheia, [foi] apresentado na Biblioteca Nacional da capital cabo-verdiana e, nele, Nuno Manalvo considera o antigo primeiro-ministro (1991/2000) como o «pai da fundação da democracia» no arquipélago.
Segundo o autor, o livro é um «trabalho de investigação científica», isento e com a «distância recomendada perante o objecto de estudo», mas centrado apenas em torno da história política recente de Cabo Verde.
Nuno Manalvo define Carlos Veiga como «um político moderno» e com uma visão do mundo «que não é habitual em líderes africanos», considerando-o um «embaixador da democracia no continente que mais dela necessita e dela tem falta».
Com este livro, o autor disse pretender traçar a «vida política do homem que esteve na génese da democracia em Cabo Verde», que liderou na primeira década de abertura política do país, a partir de 1991, e que a «honrou» pela forma como saiu da cena política nacional.
Carlos Veiga chefiava o governo cabo-verdiano desde 1991 quando, em 2000, a um ano das presidenciais, entregou o governo a Gualberto do Rosário, para se candidatar a chefe de Estado, que viria a perder para Pedro Pires, o actual presidente que viria a derrotá-lo novamente nas eleições de 2006, abandonando, depois, a vida política activa.
Porém, em Maio último, Carlos Veiga regressou à política e, após meses de negociações internas, tornou-se o único candidato à sucessão de Jorge Santos à frente do MpD, vencendo as eleições directas para a liderança do partido a 11 deste mês.
Veiga assegurou a chefia desde a fundação da segunda maior força política do país (em 1990) até apresentar a sua primeira candidatura às presidenciais (em 2000).
Angola Press
«Carlos Veiga: Biografia Política», de Nuno Manalvo
Começando por uma breve introdução à história de Cabo Verde, desde a descoberta aos movimentos autonomistas já no século XIX, até à luta do PAIGC e à independência, Carlos Veiga: Biografia Política traça depois o perfil do regime de partido único que vigorou durante quinze anos neste país, e relata a mudança liderada por Carlos Veiga e pelo seu Movimento para a Democracia.
Atraído para a política pelas arbitrariedades do Estado Novo, Carlos Veiga teria depois um importante papel na deposição pacífica do regime de pendor totalitário do PAIGC, que impôs um modelo político falhado a Cabo Verde, assente no controlo estatal da economia e no cercear das liberdades do país.
Criador do MpD – que, na esteira da queda do muro de Berlim, conseguiu romper com o sistema de partido único em Cabo Verde –, Carlos Veiga seria o primeiro chefe de governo escolhido em eleições multipartidárias, exercendo o cargo de primeiro-ministro entre 1991 e 2000.
Depois do desenvolvimento que imprimiu aos destinos de Cabo Verde, e consciente da necessidade de renovação em democracia, deixou o cargo para se candidatar à Presidência da República, com o que pretendia consolidar o regime constitucional de que foi mentor. No entanto, viria a perder as eleições presidenciais por uns escassos 17 votos – naquilo que se viria a demonstrar em tribunal ter sido um resultado fraudulento.
«Num continente que nem sempre é sinónimo de democracia, num pequeno país sempre sujeito às flutuações do sistema internacional, a mudança rumo a uma maior consagração da democracia é sempre uma tarefa árdua, faseada, prolongada, mas de sentido único. Em Cabo Verde, a mudança para a liberdade e para a democracia têm um rosto – Carlos Veiga.»
Nuno Manalvo, docente universitário de Relações Internacionais e Ciência Política, é também autor das obras Sá Carneiro: Biografia Política, PSD: A Marca dos Líderes, e O Espaço da Lusofonia.
Carlos Veiga: Biografia Política
O Rosto da Mudança em Cabo Verde
Alêtheia Editores, Outubro de 2009
ISBN: 978-989-622-198-0
Formato: 160*240 mm
Nº de páginas: 188 + 16 il.
Preço: 12,00 €
quinta-feira, 22 de Outubro de 2009
Lídio Lopes publica livro sobre «Protocolo Autárquico»
O presidente da Associação Nacional de Municípios Portugueses (ANMP), Fernando Ruas, apresentou esta semana, na Figueira da Foz, o livro Protocolo Autárquico, da autoria de Lídio Lopes, considerando que se trata de «um manual indispensável para os autarcas».
Com mais de 300 páginas, o livro assume-se como um manual «indispensável» para as autarquias locais, Câmaras, Assembleias Municipais, Juntas e Assembleias de Freguesia, descrevendo em pormenor o protocolo de Estado, autárquico, militar, religioso, académico, empresarial, desportivo e Social.
«O livro é de uma utilidade a toda prova, pois precisamos de conhecer as regras de organização. Os próprios eventos, cada vez mais presentes, levados a cabo pelos municípios, penso que são também uma razão mais do que suficiente para aparecer uma publicação como esta», afirmou Fernando Ruas, que preside também à Câmara de Viseu.
Segundo o presidente da ANMP, que garantiu adoptar e recomendar a obra, com o protocolo organizado «pode-se retirar tudo aquilo que signifique perda de tempo, que é também outra das grandes vantagens que vejo na obra, e talvez retirar tudo aquilo que possa gerar conflitos».
«Ao longo destes 20 anos que tenho de autarca, já passei por situações complicadas com ausência de protocolo e, portanto, ele é fundamental. Neste momento, até se justifica muito mais, pois não há autarquia que não tenha geminações, que não receba governantes ou que não tenha visitas do Presidente da República ou outras entidades», frisou Fernando Ruas.
O livro Protocolo Autárquico, com chancela da Alêtheia Editores, dedica particular atenção às necessidades das autarquias locais, ensinando, por exemplo, «a ordem de precedências, como se procede à substituição de autarcas nos vários órgãos, e as mais diversas cerimónias organizadas pelos municípios, desde a tomada de posse às sessões solenes».
Escrito por Lídio Lopes, antigo chefe de gabinete de Santana Lopes, depois vereador na Câmara da Figueira da Foz, e presidente da Sociedade Portuguesa de Protocolo e Cerimonial, o manual pretende também, segundo o autor, ajudar as centenas de novos autarcas e chefes de gabinete que se preparam para iniciar funções nos municípios portugueses.
Notícias do Centro, 22 de Outubro de 2009
quarta-feira, 14 de Outubro de 2009
«Protocolo Autárquico», de Lídio Lopes
Este manual é um instrumento de trabalho indispensável para todos os autarcas e seus colaboradores, descrevendo em pormenor e criteriosamente o Protocolo de Estado, Autárquico, Militar, Religioso, Académico, Empresarial, Desportivo e Social.
Dedicando uma atenção particular às necessidades das Autarquias Locais, revela, nomeadamente, quais as diferenças entre os vários símbolos municipais, a ordem de precedências nas autarquias, como se procede à substituição de autarcas nos vários órgãos, e as mais diversas cerimónias organizadas pelos municípios, desde a tomada de posse às sessões solenes.
Lídio Lopes está ligado às autarquias desde 1989, primeiro como deputado municipal e depois como vereador, tendo sido chefe de gabinete e de protocolo na Câmara Municipal da Figueira da Foz. Participou em inúmeros cursos de protocolo, em Portugal e no estrangeiro. Formador nesta área, dedica particular atenção ao protocolo autárquico, sendo ainda presidente da Sociedade Portuguesa de Protocolo e Cerimonial.
Prototocolo Autárquico
Um manual indispensável para as Autarquias Locais
(Câmaras e Assembleias Municipais, Juntas e Assembleias de Freguesia)
1ª edição: Outubro de 2009
ISBN: 978-989-622-203-1
Formato: 160*240 mm
Nº de páginas: 324
Preço: 16,00 €
segunda-feira, 12 de Outubro de 2009
«Obama», de David Mendell

«A história humana é forjada a partir de inúmeros e diversos actos de coragem e de convicção. De cada vez que um homem se ergue para defender um ideal, age de forma a melhorar o destino de outros ou luta contra a injustiça, está a enviar uma pequena onda de esperança, e, ao cruzarem-se umas com as outras a partir de milhões de centros de energia e de audácia diferentes, essas ondas formam uma corrente que pode derrubar os maiores muros de opressão e resistência.»
Robert F. Kennedy, discurso do «Dia da Afirmação», Cidade do Cabo, Junho de 1966
Obama faz pose olhando através das grades da cela onde Nelson Mandelaesteve encarcerado na ilha Robben, ao largo da Cidade do Cabo,
na África do Sul. (Associated Press/Obed Zilwa)
«Tenho consciência de que estou a transmitir-vos estas palavras de esperança numa altura em que a esperança parece ter desaparecido de muitas partes do mundo. Neste momento está a acontecer uma chacina no Darfur. Existe uma guerra no Iraque… E tenho de admitir que isso faz, por vezes, com que eu tenha dúvidas de que os homens sejam, de facto, capazes de aprender com a história, de que a nossa progressão de um estádio para outro seja feita num percurso ascendente ou se nos limitamos a seguir os ciclos de prosperidade e retracção, de guerra e paz, de ascensão e declínio… E depois pensei que se um homem negro de ascendência africana pôde regressar à terra natal dos seus antepassados como senador dos Estados Unidos e pôde falar para uma multidão de sul-africanos, negros e brancos, que partilham a mesma liberdade e os mesmos direitos… pensei então: as coisas mudam mesmo e a história avança realmente.»
Barack Obama, discurso «Uma humanidade comum através da segurança comum», Cidade do Cabo, Agosto de 2006
Obama – Do Desejo ao Poder
Autor: David Mendell
Título original: Obama, from Promise to Power
Tradução: Lívia Franco, Carla Ferraz, João Tordo, Cristina Queiroz
1ª edição: Fevereiro de 2008
ISBN: 978-989-622-133-1
Formato: 160*240 mm
Nº de páginas: 364 + 16 il.
Preço: 15,00 €
quarta-feira, 23 de Setembro de 2009
As traduções portuguesas de «Os Grandes Livros», de Anthony O'Hear

Homero, Ilíada
Tradução de Frederico Lourenço, Lisboa, Livros Cotovia, 2005
Homero, Odisseia
Tradução de Frederico Lourenço, Lisboa, Livros Cotovia, 2003
Ésquilo, Oresteia
Tradução de Manuel de Oliveira Pulquério, Lisboa, INCM, 1985
Sófocles, Antígona
Tradução de Maria Helena da Rocha Pereira, Coimbra, Centro de Estudos Clássicos e Humanísticos da Universidade de Coimbra, 1984.
Eurípides, As Bacantes
Tradução de Maria Helena da Rocha Pereira, Lisboa, Edições 70, 1998
Platão, Apologia de Sócrates, Êutifron, Críton e Fédon
Fédon — Tradução de Maria Teresa Schiappa de Azevedo, Coimbra, Livraria Minerva, 1988
Virgílio, Eneida
Agostinho da Silva, Lisboa, Temas e Debates, 2008
Ovídio, Metamorfoses
Tradução de Paulo Farmhouse Alberto, Lisboa, Livros Cotovia, 2007
Santo Agostinho, Confissões
Tradução de Maria Luiza Jardim Amarante, São Paulo, Paulus, 1984
Dante, A Divina Comédia
Tradução de Vasco Graça Moura, Lisboa, Bertrand Editora, 2002
Chaucer, Contos da Cantuária
Tradução de Olívio Caeiro [excertos], Porto, Brasília Editora, 1980
Shakespeare, Henrique V
Tradução de Henrique Braga, Porto, Lello e Irmão Editores, 1988
Shakespeare, Hamlet
Shakespeare, A Tempestade
Tradução de João Grave, Porto, Lello e Irmão Editores, s.d.
Cervantes, Dom Quixote
Tradução de Miguel Serras Pereira, Lisboa, Dom Quixote, 2005
Milton, Paraíso Perdido
Tradução de Fernando da Costa Soares e Raul Domingos Mateus da Silva, Lisboa, Chaves Ferreira, 2002
Pascal, Pensamentos
Racine, Fedra
Tradução de Vasco Graça Moura, Lisboa, Bertrand Editora, 2005
Goethe, Fausto
Tradução de Agostinho d’Ornellas, Lisboa, Relógio d’Água Editores, 1987
«O Que a Civilização Ocidental deve à Igreja Católica», de Thomas E. Woods, Jr.
A civilização ocidental baseia-se nos milagres da ciência moderna, na riqueza do mercado livre, na segurança do primado da lei, no respeito pelos direitos humanos e pela liberdade, nas virtudes da caridade ou da segurança social, nas belas-artes e na música, numa filosofia assente no racionalismo, e numa série de outros factos que temos como adquiridos – e que fazem de nós a mais poderosa e mais extraordinária civilização de todos os tempos.
Mas qual é, ao fim e ao cabo, a fonte de todos estes prodígios? O aclamado autor e professor Thomas E. Woods Jr. dá-nos aqui a resposta, há muito tempo negligenciada: foi a Igreja Católica que construiu a civilização ocidental.
- Foi a Igreja Católica quem arrancou a Europa da Idade das Trevas
- A ciência moderna nasceu de facto com a Igreja Católica.
- Os padres católicos desenvolveram a ideia do mercado livre cinco séculos antes de Adam Smith. Foi a Igreja Católica quem criou as universidades e os hospitais.
- Tudo o que se diz sobre o caso de Galileu é falso.
- O direito ocidental nasceu do código canónico, e não só do romano.
- A Igreja humanizou o Ocidente, insistindo na santidade de todas as vidas.
Ninguém fez mais para modelar a civilização ocidental do que a Igreja Católica, nos seus dois mil anos de existência – e em tantos aspectos, que quase nos esquecemos deles. Este livro é fundamental para nos reconciliarmos com essa verdade, que muitos tentam hoje camuflar.
Tradução: Maria José Figueiredo
1ª edição, Setembro de 2009
ISBN: 978-989-622-192-8
Formato: 130*220 mm
Nº de páginas: 276
Preço: 18,00 €
quinta-feira, 17 de Setembro de 2009
«Os Grandes Livros», de Anthony O'Hear
A Odisseia, a Divina Comédia, os Lusíadas – a grande literatura pode ser lida por todos nós, com uma pequena ajuda.
Numa viagem fascinante ao longo de 2500 anos, Anthony O’Hear mostra-nos o caminho, na companhia de livros tão poderosos, emocionantes e cheios de erotismo como qualquer best-seller moderno.
Começamos por Homero, o pai da literatura ocidental. Depois, a tragédia grega, Platão, a Eneida de Virgílio e as Metamorfoses de Ovídio, fonte inesgotável de inspiração para a literatura e as artes plásticas europeias.
Através de Santo Agostinho passamos à Divina Comédia de Dante, um desvio ao mesmo tempo tenebroso e sublime pelo Inferno e pelo Purgatório, terminando na sua arrebatada visão do Paraíso. Chaucer, Camões, Shakespeare, Cervantes, Milton, Pascal, Racine e Goethe completam a tábua das personagens desta história fabulosa. Em qualquer dos casos, O’Hear traça um esboço paciente dos seus temas, aborda passagens cruciais e explica a importância imorredoura destas obras.
Mais do que uma grande obra de referência, esta é também uma história narrativa contada com um profundo amor pela literatura – e uma crença inabalável na sua capacidade de inspirar e enriquecer os nossos mundos.
Anthony O’Hear é professor de Filosofia da Universidade de Buckingham, director do Royal Institute of Philosophy e editor da revista Philosophy. O presente livro é fruto de um curso dado na Universidade Católica em 2004/05, e patrocinado pela Fundação Calouste Gulbenkian.
«E nem nos apercebemos bem de que, embora os clássicos gregos e romanos estejam realmente distantes de nós, temos armazenados, na mente e no coração, temas e atitudes que nos vêm deles. De tal maneira que uma viagem pelos clássicos é uma viagem de descoberta, é certo, mas é também uma viagem de autodescoberta.» – Anthony O’Hear, na Introdução
Os Grandes Livros – Da Ilíada e da Odisseia, do Fausto de Goethe aos Lusíadas, uma viagem pelos 2500 anos da literatura clássica
Tradução: Maria José Figueiredo
1ª edição, Setembro de 2009
ISBN: 978-989-622-173-7
Formato: 160*240 mm
Nº de páginas: 520
Preço: 19,00 €
quarta-feira, 16 de Setembro de 2009
O mundo para os jovens e Portugal para os graúdos

Manfred Mai destaca logo no prefácio que o livro não pretende explicar o Mundo, pelo contrário, o objectivo é «fornecer uma primeira visão de conjunto da história mundial». O autor, professor do ensino secundário, ressalta ainda que sentiu necessidade de escrever esta obra «porque sei que só possuindo um vasto quadro geral se pode compreender verdadeiramente a história em todas as suas facetas e nos seus detalhes. Talvez um dos problemas do ensino da história nas nossas escolas seja precisamente este: é que só se chaga a ter um quadro geral no fim do longo currículo escolar».
Por isso, em Breve História do Mundo Contada aos Jovens Leitores, temos uma abordagem bastante completa dos principais acontecimentos da história ocidental, desde «Os primeiros seres humanos» (primeiro capítulo) até «Um só mundo» (52.º). A escrita de Mai é bastante directa e esta é uma das principais qualidades deste livro, além de abordar os acontecimentos de forma simples e sem complicações, sendo por isso um óptimo complemento aos estudos.
Os textos são curtos e acabam por não cansar o leitor, pelo contrário, o mesmo acaba por passar de capítulo para capítulo sem custos, com prazer. Mesmo os acontecimentos mais dramáticos da história mundial (as cruzadas, as grandes guerras, o colonialismo….) são abordados de forma educativa (é notório verificar a formação profissional de Manfred Mai em cada página). Breve História do Mundo Contada aos Mais Jovens Leitores é portanto uma obra exemplar que tem o dom de abrir a curiosidade aos mais jovens, que, após a sua leitura, vão procurar descobrir mais em pormenor os caminhos da História mundial
Se o livro de Manfred Mai procura explicar um pouco do Mundo, a obra de Vasco Pulido Valente tem o dom de explicar em pormenor muito da história nacional. No total, 331 páginas, 10 ensaios entre as invasões francesas até aos nossos dias (liberalismo, a conspiração monárquica, os anos de Salazar, o 25 de Abril, o exílio e a queda de Marcello Caetano…), um livro que reúne «as coisas que eu acho que escrevi de relevante sobre Portugal», referiu o autor. Como é habitual na escrita de Pulido Valente, há rigor mas também alguma polémica nestes ensaios, como referir que «o dr. Cunhal é parecido como uma gota de água com o dr. Salazar: é o dr. Salazar virado do avesso».
Portugal – Ensaios de História e de Política agrega artigos que foram publicados nos mais diversos meios, como nos jornais Diário de Notícias, O Independente e Público ou na saudosa revista K. Apesar de podermos não concordar com muitas das conclusões de Pulido Valente, não podemos negar o seu discurso, sempre rico em pormenores e acima de tudo sustentáveis. Após lermos este livro temos uma ideia muito clara sobre o nosso país, compreendemos que a queda da monarquia (com a ajuda da classe aristocrática) ou o surgimento de Salazar (devido a uma república doente) acabaram por ser dois factos naturais na nossa história. Esta colectânea de artigos é um verdadeiro regalo para todos, uma obra de referência para quem pretende compreender parte da história do nosso paísterça-feira, 15 de Setembro de 2009
O estranho caso de um católico inglês
Excepto nos países totalitários, a dissidência é um prazer. Segundo a mais simples fórmula matemática, a dupla dissidência dá o dobro do gozo. Ora, no Reino Unido, a opção pelo catolicismo representa um gesto de rebeldia não só em relação à Igreja como ao Estado. Depois de, no século XVI, Isabel I ter declarado serem os católicos um bando de heréticos, o destino desta confissão passou por várias etapas, da condenação à morte à tolerância e, por fim, à glamorização. Hoje, ser-se católico no Reino Unido é chique. Quando, em 1922, G. K. Chesterton aderiu à Igreja Católica (muitos anos depois de ter escrito este livro) já não se decapitavam os crentes no poder papal, mas não existia ainda a vaga de conversões recentes, de que a mais famosa é a de Tony Blair.
Esqueçam os seus livros mais populares, Father Brown e The Napoleon of Notting Hill, e concentrem-se na Ortodoxia, a sua biografia intelectual (Lisboa, Alêtheia, 2008, tradução da versão original de 1908). É verdade que também escreveu uma obra intitulada Autobiography (Londres, Hamish Hamilton, 1936), mas não se lhe compara em qualidade. Nesta, que começa bem, G. K. Chesterton tentou falar da sua vida, mas nada lhe interessando menos do que o ego, não tarda em divagar.
Chesterton era um radical que odiava os privilégios dos ricos e o poder do Estado, sentimentos que nunca renegaria. O previsível teria sido optar, como o seu amigo Bernard Shaw, pelo socialismo, mas não foi isso que fez, encaminhando-se gradualmente para o cristianismo e, mais tarde, para o catolicismo. Como sucederia com Orwell, o que lhe importava era o concreto, não um qualquer esquema destinado a salvar a Humanidade. Como Orwell ainda, sentia-se mal entre os intelectuais do seu tempo e, como Orwell, valorizava a tradição. Dito isto, os seus caminhos divergiram. Porque, na vida de G. K. Chesterton, irrompeu o divino.
Eis como conta a sua conversão (pág. 119): «Até essa altura, tudo quanto tinha ouvido dizer acerca da teologia cristã me afastara dela. Aos doze anos, era pagão, aos dezasseis era completamente agnóstico; e não consigo conceber que uma pessoa passe pelos dezassete anos sem ter feito a si mesma pergunta tão simples. Mantinha, é certo, uma nebulosa reverência por uma divindade cósmica, a par de um enorme interesse histórico pelo fundador do cristianismo. Mas não tinha dúvida nenhuma em O considerar um homem – embora talvez achasse que, mesmo assim, Ele tinha algumas vantagens relativamente a alguns pensadores modernos que O criticavam.» Reparem no que vem a seguir: «Li a literatura científica e céptica do meu tempo, ou pelo menos toda a literatura que consegui encontrar em inglês (...). Não li uma linha que fosse de apologética cristã; actualmente, leio o mínimo que posso. Foram Huxley, Herbert Spencer e Bradlaugh que me fizeram regressar à teologia ortodoxa, por me terem semeado no espírito as primeiras dúvidas terríveis que eu tive acerca da dúvida.» Em resumo, a sua conversão foi a forma como ele reagiu à arrogância, limitação e estupidez dos positivistas do seu tempo. Nascido em 1874, foi sempre um inconformista.
Em resposta aos cínicos que faziam troça do seu idealismo, diz (pág. 61-62): «O que de facto aconteceu foi exactamente o oposto do que eles tinham previsto. Afirmavam eles que eu havia de largar os meus ideais e de começar pragmaticamente a acreditar no funcionamento da política. Ora, a verdade é que eu não abandonei minimamente os meus ideais; a verdade é que a fé que deposito nas questões fundamentais permanece intacta. Aquilo que abandonei foi a fé infantil na pragmática política. (...) Continuo a acreditar no liberalismo, tanto como sempre acreditei, mais do que sempre acreditei. Embora seja certo que o período de dourada inocência em que acreditei nos liberais já passou.» Algumas páginas depois, argumentava a favor da tradição (pág. 63): «Mas há uma coisa que, desde a minha juventude, nunca consegui compreender: onde foram as pessoas buscar a ideia de que a democracia se opõe, seja de que maneira for, à tradição? Pois é óbvio que a tradição mais não é do que um prolongamento da democracia no tempo.»
Profetas da desgraça
Muitos apologistas cristãos são gente melancólica. Não é esse o caso de Chesterton, um optimista feito a pulso. Note-se como olha a realidade (pág. 89): «Porque o universo é uma jóia e, embora seja uma metáfora comum afirmar que as jóias são incomparáveis e preciosas, no caso destas jóias isso é literalmente verdade. Este cosmos é efectivamente sem par e sem preço, porque não pode haver mais nenhum como ele.» Odiou sempre os profetas da desgraça (pág. 100): «Bem sei que este [o pessimismo] é o sentimento predominante na época em que vivemos e parece-me que este sentimento gela a nossa época. Tendo em consideração os titânicos objectivos de fé e de revolução que nos movem, aquilo de que nós precisamos não é da fria aceitação do mundo, que afinal mais não é do que uma enorme cedência; precisamos é de encontrar maneira de o amar de todo o coração e de o detestar de todo o coração.» Para quem não o tivesse compreendido, explicava: «Não queremos que a alegria e a dor se neutralizem mutuamente, produzindo um contentamento enfadado; queremos sentir um prazer mais acentuado, mas também uma dor mais acentuada.»
Em jovem, Chesterton sofrera uma depressão, revelando como a superara: «E, a partir do momento em que se deu essa inversão [do pessimismo para o optimismo], eu tive aquela sensação de libertação abrupta que se tem quando um osso deslocado é novamente posto na respectiva cavidade natural. (...) Mas o optimismo do meu tempo era, todo ele, falso e desencorajador, porque se esforçava por demonstrar que nós nos adaptamos a este mundo. Ora, o optimismo cristão assenta no facto de que nós não nos adaptamos a este mundo.» Poucos falavam assim.
Este livro é uma tentativa para nos convencer que o credo racionalista é deficiente (pág. 195): «O cristianismo é a única religião do mundo que achou que a omnipotência tornava Deus incompleto. O cristianismo é a única religião que achou que Deus, para ser totalmente divino, tinha de ser um rebelde, para além de ser um rei.» Para ele, Cristo é subversivo, não um aliado da Ordem. Mais adiante (pág. 201) dissertará sobre as vantagens do cristianismo, a que chama ortodoxia: «Se queremos derrubar o opressor próspero, não é com a ajuda da nova doutrina da perfectibilidade humana que conseguiremos fazê-lo; mas seremos capazes de o fazer com o auxílio da velha doutrina do pecado original. Se queremos extirpar crueldades inerentes ou animar populações decaídas, não é com o auxílio da teoria científica segundo a qual a matéria precede o espírito que conseguiremos fazê-lo; mas seremos capazes de o fazer com o auxílio da teoria sobrenatural segundo a qual o espírito precede a matéria.»
G. K. Cherteston insiste, o que é curioso, no facto de ter aderido ao cristianismo não devido a um chamamento superior, mas através de métodos racionais (pág. 213): «Discuti em pormenor estes casos típicos de dúvida, a fim de transmitir a tese principal: que é por motivos racionais, embora não seja por razões simples, que adiro ao cristianismo. Consistem esses motivos numa acumulação de factos diversos, que é também aquilo que justifica a atitude do agnóstico comum. Acontece, porém, que o agnóstico percebeu tudo mal.» Vem, depois, a secção mais polémica: «Ele [o agnóstico] é descrente por uma série de razões – todas elas falsas. Ele duvida porque a Idade Média foi uma idade bárbara, quando a verdade é que não foi; porque o darwinismo está provado, quando a verdade é que não está; porque não há milagres, quando a verdade é que há; porque os monges são preguiçosos, quando a verdade é que eram diligentes; porque as freiras são infelizes, quando a verdade é que são particularmente alegres; porque a arte cristã era triste e apagada, quando a verdade é que era feita de cores berrantes e recoberta a ouro; porque a ciência moderna está a afastar-se do sobrenatural, quando a verdade é que não está, está a aproximar-se do sobrenatural à velocidade de um comboio rápido.» Muito do que afirma é um disparate, mas isso não me impede de gostar de o ler.
O mundo seria mais triste?
Quase no final, G. K. Cherteston tenta responder à pergunta que muitos fazem, no sentido de saber se não podemos ficar com o que de bom existe na doutrina cristã, deitando borda fora os dogmas. Depois de se ter declarado, mais uma vez, um racionalista, aborda a tese de que, com a religião, o mundo teria ficado mais triste, negando-a: «Os países europeus que ainda se encontram sob a influência dos sacerdotes são exactamente aqueles países onde ainda se canta, se dança, se envergam roupas coloridas e se praticam as artes ao ar livre. A doutrina e a disciplina católicas poderão ser muros; mas são muros de um parque de diversões.»
Dou de barato que os países em que o calvinismo foi dominante são mais sombrios do que os que optaram pelo catolicismo, mas é preciso não adoçar o que acontecia nos países latinos. Basta pensar em Portugal. Exceptuando W. Beckford, que, no século XVIII, apreciou uma missa a que assistiu na capela das Necessidades, sobretudo pelo seu luxo, raramente um estrangeiro louvou o que viu. A maioria era protestante, mas isto não invalida todas as observações. Escolho um extracto, ao acaso, retirado do livro de W. M. Kinsey, um clérigo que visitou Portugal em 1828: «Se as cerimónias da Igreja Católica não conduzissem a mais do que a um divertimento inocente dos seus aderentes, tudo estaria bem; mas essa faceta é, infelizmente, aquilo que podemos considerar a poesia do sistema. A triste realidade encontra-se na tirania dos confessionários, nas arrogantes extorsões e nas exigências anticristãs do poder papal.» Foi isto que G. K. Chesterton não quis reconhecer.
Na realidade não conhecia, por dentro, os países onde a Igreja Católica era dominante. Lembrando a sua Irlanda natal, Bernard Shaw avisou-o do perigo de continuar a fazer extrapolações a partir do que se passava em Inglaterra, mas aquele não o quis ouvir. Não sei o que teria escrito caso tivesse visitado Portugal, mas sei o que eu vi e vivi. A tal ponto era aqui a Igreja Católica dominante que, até aos meus 15 anos, pensava ser a única em todo o planeta. Na escola, na família, nas ruas, jamais vislumbrei alguém que professasse outra religião. Estou consciente de que o meu caso – tendo ingressado num colégio de freiras aos três anos só dele sairia aos dezassete – não é generalizável, mas sei que muita gente nascida, como eu, na década de 1940, terá passado por uma experiência semelhante. Na redoma em que o cardeal Cerejeira, o arcebispo de Mitilene e a minha mãe me enclausuraram não entravam correntes de ar.
Só em 1962, quando vivi em Londres durante alguns meses, descobri que existiam protestantes, judeus e muçulmanos. Poderia ter aproveitado para aderir ao anglicanismo – isso, sim, um gesto original –, mas, uma vez que estava em rota de colisão com Deus, o melhor, concluí, era deixar de pensar n'Ele.
Quando regressei à pátria, continuei a ler os livros que havia lá por casa. À mistura com obras que sabia interditas, como as de André Gide, Óscar Wilde e Bertrand Russell, compradas com a minha «semanada», lia o que estava nas estantes da sala. Apesar de católica, a minha mãe era inteligente, não se contentando em dirigir a lida da casa. Em grande medida, a minha iniciação literária foi feita à base dos escritores que ela admirava, A. J. Cronin, François Mauriac e G. K. Chesterton. Do primeiro, pouco me ficou, além de um punhado de mineiros; do segundo, umas velhas provincianas; G.K. Chesterton saiu vitorioso. Reli a sua Ortodoxia com prazer. Estou certa que a outros, católicos ou ateus, acontecerá o mesmo. Não deixe que o livro se perca entre as capas que efemeramente ornamentam as estantes das nossas livrarias.
Nota: Maria Filomena Mónica publicou, na Alêtheia Editores, os livros Bilhete de Identidade (Memórias 1943-1976), Cesário Verde, um génio ignorado, e Passaporte (Viagens 1994-2008).
quarta-feira, 9 de Setembro de 2009
Pedro Picoito, sobre o «Portugal» de Vasco Pulido Valente
[...] D. João VI, os sucessivos liberais, Costa Cabral, a galeria dos republicanos, Paiva Couceiro, Salazar, Marcello Caetano, Cunhal, ninguém escapa à pena do cronista. Talvez VPV seja injusto aqui e ali, como costuma ser quem não tem medo de adjectivar os homens, mas dá-nos uma visão profundamente original do passado que eles viveram. Por exemplo, é injusto com a Igreja e o suposto aproveitamento político das aparições de Fátima, momento-chave da resistência católica à repressão da "República velha". Mas não se pode pedir a um incréu para ver nas idas e vindas da Mãe de Deus a uma charneca da Serra de Aire em 1917 algo mais do que um genial golpe de propaganda.
Longe de vulgatas escolares e vassalagens académicas (o doutoramento em Oxford e a prateleira dourada do ICS ajudam), poucos historiadores portugueses escrevem hoje como VPV. Por isso poucos são tão lidos como ele. A história é uma das belas artes. Um romance verdadeiro, na fórmula célebre e polémica de Paul Veyne. Aqueles que procuraram dar-lhe a respeitabilidade do positivismo retiraram-lhe a dignidade muito maior de ser lida. Entre nós, VPV foi um dos primeiros a fugir de tal erro, juntamente com outros historiadores não por acaso associados à direita (whatever that means) e à influência anglófona: Rui Ramos, Fátima Bonifácio, Filomena Mónica
Talvez este livro, com a sua erudição invisível, a ausência de notas que a autoridade do especialista dispensa, a vontade de chegar ao grande público sem cair na falta de rigor, seja a melhor introdução ao nosso passado próximo. O tal país que somos, parece.
Pedro Picoito, O Cachimbo de Magritte, 7 de Setembro de 2009
sexta-feira, 4 de Setembro de 2009
Os 10 grandes livros sobre Lenine
Uma lista de dez grandes livros sobre Vladimir Ilitch Lenine, elaborada por Helen Rappaport para o jornal Guardian.
Via Senhor Palomar
Tanto Lenine: Uma Biografia, de Dmitri Volkogonov (Lisboa, Edições 70, 2008), como Lenine, de Robert Service (Europa-América, 2004), foram recentemente publicados em Portugal, mas também a «fragmentária e inacabada» obra de Trotsky terá sido traduzida por Elisa Teixeira Pinto, e publicada em 1976 em Lisboa, segundo o catálogo da Biblioteca Nacional.
Fosse a lista do Guardian sobre o (considerado) mais infame Estaline, provavelmente incluiria a obra de Simon Sebag Montefiore, Estaline: A Corte do Czar Vermelho (Alêtheia, 2006), ou, do mesmo autor, O Jovem Estaline (Alêtheia, 2008).
Diga-se que a Alêtheia Editores irá publicar, ainda este ano, a obra Ekaterinburg: Os últimos dias dos Romanovs, da autoria da historiadora Helen Rappaport.
[Texto corrigido.]









